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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

ANITA GARIBALDI

Nascida na cidade catarinense de Laguna (SC), Ana Maria de Jesus Ribeiro da Silva teve uma origem familiar humilde combinada com uma boa educação. Seguindo os padrões da época, casou-se bastante jovem, aos 15 anos, com Manuel Duarte de Aguiar. No ano de 1837, já com o desenvolvimento da Revolução Farroupilha, ela teve a oportunidade e conhecer Giuseppe Garibaldi, um dos principais líderes do movimento que conquistara sua cidade natal.


Anita Garibaldi quebrou os padrões de sua época ao se envolver na luta revolucionária
Anita Garibaldi quebrou os padrões de sua época ao se envolver na luta revolucionária

Logo se mostrando apaixonada por Giuseppe, Ana Maria resolveu abandonar o seu infeliz matrimônio para que ao lado do revolucionário italiano marcasse a História com o nome de Anita Garibaldi. No tempo em que Laguna se transformou em sede do governo da República Juliana, que tomou Santa Catariana, Anita aprendeu a manusear espadas e armas de fogo. Em pouco tempo, a paixão pelo companheiro e os riscos da guerra se tornaram situações comuns à sua peculiar rotina.


Durante a Batalha de Curitibanos, Anita foi capturada pelas tropas que representavam o Império Brasileiro. Presa e grávida do seu primeiro filho, ela foi enganosamente informada que Garibaldi havia falecido nos campos de batalha. Inconformada e duvidosa sobre a informação, ela pediu aos oficias que a deixem procurar o marido entre os corpos. Nesse instante, desconfiando do que lhe fora dito, ela saltou em um cavalo e fugiu dos oficiais que a vigiavam.

Após atravessar um rio e passar alguns dias sem alimento, ela buscou refúgio entre alguns revolucionários. Poucos dias depois, Anita e Giuseppe se encontraram na cidade de Vacaria. Já em 1841, o casal seguiu para a cidade de Montevidéu, para apoiar outra revolta contra o ditador uruguaio Fructuoso Rivera. Após a participação nos conflitos, Anita foi enviada para a Itália, em 1847, para realizar os preparativos que receberiam o marido e uma tropa de mil homens que participariam das guerras de unificação da Itália.

Nesse novo conflito, o casal chegou até acidade de Roma, que havia sido posta como a capital da nova República Romana. Apesar da conquista, tiveram que enfrentar a opulência das forças franco-austríacas, e bateram em retirada nas ofensivas que marcaram a Batalha de Gianicolo. Acompanhados por, aproximadamente, quatro mil soldados, o casal de revolucionários ainda teve de suportar a pressão de outros exércitos contrários ao processo de unificação.

Quando atingiram a cidade de San Marino, a embaixada norte-americana ofereceu um salvo conduto que poderia tirar o casal daquela penosa situação de risco. Não aceitando o convite, por temer a desarticulação do processo de unificação, Anita e Giuseppe continuaram a sua fuga. A essa altura, esgotada pela quinta gravidez, a valente revolucionária ficou abatida ao enfrentar uma grave crise de febre tifoide. Não resistindo, Anita faleceu nas proximidades de Ravenna, em 4 de agosto de 1849.

Ferozmente perseguido pelos soldados austríacos, Garibaldi não teve sequer a oportunidade de acompanhar os cortejos fúnebres da esposa. Partindo para o exílio, o revolucionário italiano ficou dez anos fora da Itália. Somente em 1932, o corpo de Anita Garibaldi foi definitivamente transferido para a colina de Janiculo, localizada na porção ocidental da cidade de Roma.



Fonte: Brasil Escola


JOANA D'ARC

Joana D’Arc nasceu em 1412 na cidade de Domrémy no interior da França. Garota simples, analfabeta e bastante religiosa, ela ia à igreja sempre que podia. Aos treze anos, começa a ouvir vozes de origem divina que a incubem de liderar a libertação dos franceses frente os ingleses.
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Pausa para uma rápida contextualização histórica: estamos em meio à Guerra dos Cem Anos entre França e Inglaterra, que tem como fim retomar territórios franceses ocupados pelos ingleses. No início do século XV, o rei francês Carlos VI está louco (literalmente) e não possui um filho velho o suficiente para reinar – por isso, há uma disputa pelo trono entre seu irmão, Luís de Orleans, e seu primo, João I de Borgonha. Em 1407, Luís é assassinado e acelera a repartição interna da França entre armagnacs (que apóiam Luís) e borguinhões (que apóiam João). Enquanto isso, Carlos VII, o herdeiro do trono, cresce e sua primeira ação oficial é organizar um tratado de paz entre as duas facções, que termina com o assassinato do então Duque de Borgonha durante uma reunião. Os borguinhões culpam Carlos VII pela falta de proteção durante o incidente e aliam-se aos ingleses.
Voltando à Joana D’Arc. Aos 16 anos, ela se encontra com o Delfim (herdeiro do trono) Carlos VII e lhe convence, através de previsões certeiras sobre certos acontecimentos militares, de que ouve vozes divinas que a guiam à vitória e expulsão dos ingleses. Além disso, ela planeja retomar a cidade de Reims, onde a cerimônia de coroação dos reis é realizada para que o herdeiro possa ser coroado oficialmente. No entanto, esta cidade estava tomada por anglo-borguinhões. Por estar passando por uma péssima fase na guerra e já ter extinguido suas opções lógicas e racionais, Carlos VII concede a sua última gota de esperança à Joana D’Arc e a sua suposta divindade, servindo-lhe com equipamentos de guerra e a liderança de uma tropa na missão de libertar Orleans.
Sempre vestida de homem, Joana D’Arc parte em sua jornada militar e, chegando em Orleans, se encontra com os líderes de outras tropas aliadas, que não dão ouvidos a uma líder tão jovem. Mesmo assim, ela briga para poder participar das reuniões de Conselho e os convence a adotar uma tática mais agressiva, já que a estratégia cautelosa adotada até então era um fracasso. Em dois dias, Joana D’Arc e suas tropas retomaram duas fortalezas. No terceiro dia, os outros líderes insistiram em esperar reforços, e ela foi ao ataque mesmo quase sem apoio e recuperou mais uma fortaleza. Em meio a esses ataques, ela teria sido atingida por uma flecha no pescoço, o que não a impediu de continuar. Após tanto sucesso, foi promovida e ganhou permissão do Rei para seguir em frente com o seu plano de subir às margens do Rio Loire até a cidade de Reims. O seu exército tomou mais três regiões dominadas pelos borguinhões no mês seguinte. Comandantes que a condenavam passaram a admirá-la. Em 03 de julho, os inimigos cederam a cidade de Auxerre, próximo a Reims.
“Duque de Borgonha, eu te imploro e humildemente suplico que você não faça mais guerra contra o reino sagrado da França. Retire as suas pessoas de certos lugares e fortalezas desse reino sagrado, e, em nome do gentil rei da França, eu digo que ele está pronto para fazer as pazes com você, por sua honra” – é um trecho de uma carta enviada por Joana D’Arc ao Duque de Borgonha. A heroína francesa obteve a fama de preferir usar a sua moral à sua espada. Reims abriu as suas portas pacificamente, e Carlos VII foi coroado o rei da França. A guerra, no entanto, ainda estava longe de acabar.
Havia resistência em alguns pontos do país, incluindo a capital, Paris. Nove meses depois, na cidade de Compiègne, Joana D’Arc é capturada pelos borguinhões e vendida para os ingleses pouco depois, com a ajuda do bispo de Beauvais na negociação. O seu julgamento foi bastante controverso. O bispo era aliado dos ingleses e sequer tinha jurisdição suficiente para acusá-la de heresia, mas por motivos políticos, o julgamento foi iniciado, e Joana D’Arc, acusada de heresia e assassinato. Dez sessões ocorreram sem a presença da acusada, e quando ela foi chamada ao julgamento, não pode ao menos ter alguém em sua defesa. Seu pedido de falar com o papa, algo que, muitos acreditam, poderia ter salvado Joana D’Arc, foi negado pelo bispo de Beauvais. A esperteza da heroína é clara em uma parte do transcrito do julgamento, onde perguntam a ela se ela estava na graça de Deus, ao que ela responde: “Se não estou, que Deus me ponha lá; e se estou, que Deus me mantenha” – a pergunta era uma armadilha: se respondesse que sim, seria condenada por heresia já que a Igreja defendia que ninguém pode estar certo de tal coisa; se dissesse que não, estaria confessando a sua culpa. De qualquer jeito, ela nunca teve uma chance verdadeira de se defender, e foi condenada. Em 30 de maio de 1431, Joana D’Arc é queimada viva.

Vinte e cinco anos depois, o Papa Calisto III decide rever o caso e a inocenta, transformando-a em um mártir. Quase cinco séculos depois, em 1920, ela é canonizada pelo Papa Bento XV, ganhando a posição, além de heroína nacional, de santa padroeira da França. A sua história tinha sido bastante negligenciada a princípio e foi impulsionada ao centro do palco francês quando Voltaire publica clandestinamente a sua obra La Pucelle d’Orleans. La Pucelle – a donzela – foi um épico satírico de grande teor sexual, que acabou queimado e banido pela Europa durante os séculos XVIII e XIX. No entanto, o alvoroço causado por Voltaire despertou a vontade de artistas e acadêmicos de cultuarem Joana D’Arc. Desde então, a sua popularidade só cresceu: são inúmeros os poemas, livros – e hoje em dia, filmes e jogos – publicados em sua homenagem. A sua cidade natal hoje se chama Domrémy-la-Pucelle também em sua honra.
A sua jornada em muito se assemelha com a de Quitéria: ambas são mulheres que lutam vestidas de homem em uma época onde mulheres não eram aceitas nas forças armadas; ambas são de origem simples, de uma vida no interior, e analfabetas, sem educação formal; ambas lutam pela sua terra natal a fim de expulsar uma nação invasora. Por fim, o mais importante: ambas são exemplos verdadeiros de coragem, astúcia e esperança – lições essas que são universais e jamais devem ser esquecidas. Uma nação precisa de exemplos, de heróis.

Fonte: Os Heróis do Brasil




ELISA LEONIDA ZAMFIRESCU

Elisa Leonida Zamfirescu (1887-1973) foi uma das grandes mulheres do seu tempo, devido ao facto de ter sido uma das primeiras engenheiras numa área praticamente desde sempre dominada pelos homens. 

Zamfirescu nasceu em Galați, Roménia, em 10 de novembro de 1887. O seu pai, Atanase Leonida, era oficial de carreira, enquanto sua mãe, Matilda Gill, era filha de um engenheiro nascido na França. Seu irmão era o engenheiro Dimitrie Leonida. A engenharia era uma profissão quase de família, o que influenciou a jovem.

Devido aos preconceitos contra as mulheres nas ciências, Zamfirescu foi rejeitada pela Escola de Pontes e Estradas em Bucareste. Em 1909, ela foi aceite na Academia Real de Tecnologia de Berlim, em Charlottenburg. Elisa formou-se em 1912, com um diploma em engenharia. Foi alegado recentemente que ela foi a primeira engenheira do mundo, mas a irlandesa Alice Perry formou-se seis anos antes de Zamfirescu, em 1906.
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Depois da sua formação académica, Zamfirescu retornou ao seu país onde trabalhou como assistente no Instituto Geológico da Roménia. Durante a Primeira Guerra Mundial, ela juntou-se à Cruz Vermelha. Nessa época, Elisa conheceu e casou-se com o químico Constantin Zamfirescu, irmão do escritor Duiliu Zamfirescu.

Após a guerra, Zamfirescu retornou ao Instituto Geológico. Ela liderou vários laboratórios de geologia e participou de vários estudos de campo, incluindo alguns que identificaram novos recursos de carvão, xisto, gás natural, cromo, bauxita e cobre. Zamfirescu também ensinou física e química.


Elisa retirou-se da vida profissional em 1963, com 75 anos de idade. Faleceu dez anos depois, em 1973, quando contava 86 anos. Uma rua em Bucareste recebeu o seu nome.

Devido a ter sido uma das primeiras mulheres a alcançar o sucesso na engenharia, a gigante das buscas Google resolveu prestar a Elisa Leonida Zamfirescu esta homenagem. Desta forma, a empresa norte-americana demonstra mais uma vez porque participa ativamente na luta pela igualdade de direitos entre homens e mulheres, algo que caracteriza a Google desde a sua fundação.

Fonte: Cosmos Azul



VALENTINA TERESHKOVA




A primeira mulher a ir ao espaço se tornou uma líder das cosmonautas de sua geração. Também teve influência no Partido Comunista soviético.

O que é: cosmonauta
Onde vive: Rússia
Quando nasceu: 1937
O feito de Valentina Tereshkova foi tão impressionante que demoraria quase 20 anos para uma segunda mulher ir ao espaço. A cosmonauta circulou o planeta 48 vezes em junho de 1963. Tinha apenas 26 anos. É até hoje a única, das 60 mulheres que já deixaram nosso planeta, a subir ao espaço sozinha. Em segundo lugar viria uma outra russa: Svetlana Savitskaya decolou em 1982. Os Estados Unidos só enviaram a primeira americana, Sally Ride, em 1983.
PASSADO PROLETÁRIOValentina nasceu no vilarejo de Bolshoye Maslennikovo, no oeste da Rússia. Seu pai era um motorista de trator que morreu na 2ª Guerra, quando a menina tinha apenas 2 anos. A mãe trabalhava numa fábrica de tecido, a mesma profissão da filha. Além do emprego, Valentina era secretária da Liga Comunista da Juventude da região.
Nas horas vagas, praticava paraquedismo. Sem sua mãe saber, treinava quase todos os fins de semana, saltando de dia e de noite e descendo em terra ou no rio Volga. A combinação de atividade política e prática de esportes aéreos fez dela uma forte candidata a se tornar a primeira astronauta da União Soviética.
Foi selecionada em 1962, entre mais de 400 candidatas, para fazer parte da missão Vostok 6, que obrigatoriamente levaria uma mulher – o Kremlin queria estudar os efeitos do espaço sobre o organismo feminino. Ela esteve entre cinco finalistas, todas com menos de 30 anos e menos de 1,70 m de altura. Mas seu passado proletário e o fato de seu pai ser herói de guerra ajudaram Valentina a ser escolhida.
Depois de meses de treinamento e troca de informações com Yuri Gagarin, o primeiro homem a ir ao espaço dois anos antes, ela finalmente entrou na espaçonave. Passou dois dias e 23 horas tirando fotos.
MISSÃO: MARTEChegou a conversar por rádio com o comandante da União Soviética, Nikita Khrushchev. Sentiu náuseas boa parte do tempo, um problema esperado, até porque a viagem deveria durar um dia e acabou sendo estendida para três. Algo em especial a incomodou: ela se esqueceu de levar escova de dente.
Ao retornar, a cosmonauta foi recebida como uma heroína. Aceita como membro do Partido Comunista, assumiu uma postura de liderança. Também provocou comoção quando se casou, com o cosmonauta Andriyan Nikolayev, e ficou grávida. Era a primeira criança filha de mãe e pai cosmonautas. Yelena Adrianovna nunca apresentou problemas de saúde decorrentes da viagem da mãe. Tornou-se médica.
A cosmonauta acabaria se tornando apenas uma das quatro mulheres soviéticas a ir para fora da Terra. Desde que voltou, defende que os países se unam em torno de um programa para evitar a colisão de meteoros e asteroides.
Valentina completou 81 anos em março e diz que ainda tem planos: quer ir para Marte, para passar lá seus últimos anos de vida.

SEUS GRANDES ACERTOS

  • Seguiu na políticaNão foram muitas as mulheres entre as lideranças da União Soviética. Valentina fez parte do Comitê Central do Partido Comunista
  • Foi porta-vozA cosmonauta representou os interesses de seu país em uma série de conferências internacionais sobre a paz e a representatividade feminina
  • Continua respeitadaEm seu aniversário de 70 e 80 anos, ela foi celebrada pela imprensa da Rússia. Ainda é reconhecida como uma grande heroína

SEUS GRANDES FRACASSOS

  • Não levou outrasEla tentou que mais mulheres fossem ao espaço. Mas seu grupo de treinamento de cosmonautas femininas foi encerrado em 1969
  • Escondeu um erroValentina podia ter morrido no espaço: as coordenadas para sua reentrada na Terra estavam erradas. Ela aceitou manter o erro em segredo
  • Negou mortesComo representante da União Soviética para o mundo, ela defendia o regime e alegava que havia liberdade de imprensa no país
DICA DE FILMEO documentário Os Cosmonautas, de 2014, explica como os russos dominaram a corrida espacial

Fonte: Super Interessante

O PAPEL DAS MULHERES NA INDÚSTRIA

Segundo a pesquisadora Nancy Cardoso Pereira, a história do movimento operário está diretamente relacionada com as lutas das mulheres trabalhadoras industriais, ainda que tenham sofrido com as contradições e violências das formatações do trabalho.

A frase “O proletariado não tem sexo!” dita por Che Guevara marca, ainda hoje, a história das mulheres que atuam na indústria, uma vez que reúne e distribui as “relações históricas de poder desigual que persistem no âmbito da classe trabalhadora”. Essa é a avaliação da pesquisadora Nancy Cardoso Pereira durante a entrevista que concedeu à IHU On-Line, por e-mail. Ela relata a trajetória e a luta das mulheres que formaram a classe operária brasileira e diz que “o comprometimento das respostas operárias ao impasse estrutural da questão da terra no Brasil tem tido, ao longo do tempo, consequências importantes que se expressam ainda hoje na falta de um consenso político que priorize a re-formatação da estrutura agrária e agrícola no Brasil, a partir de um projeto popular”.
Nancy Cardoso Pereira é teóloga e filósofa com mestrado e doutorado em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo. É pós-doutora pela Universidade Estadual de Campinas. Atualmente, é professora na Universidade Severino Sombra, de Vassouras, Rio de Janeiro. Dentre suas obras destacamos: Remover pedras, plantar roseiras, fazer doces - por um ecossocialismo feminista(São Leopoldo, RS: CEBI, 2009) e Por uma hermenêutica das coisas úmidas e molhadas (São Leopoldo, RS: CEBI, Centro de Estudos Bíblicos, 2004).
Confira a entrevista.
IHU On-Line - Como a senhora identifica o papel das mulheres no processo de industrialização no Brasil?
Nancy Cardoso Pereira – Tenho pesquisado sobre a questão agrário-camponesa na formação da classe operária no Brasil. A abolição dos escravos em 1888, entendida como processo/resultado de amplas mobilizações dos/as trabalhadores escravos aliados/as a outros setores reunidos pelos movimentos abolicionistas, tinha uma agenda mais ampla e abrangente para além da “abolição imediata e sem indenização” como pode ser conhecido na pesquisa da professora Cláudia Andrade dos Santos .
Entre as questões que estavam colocadas neste momento da história - que se precipitou na consolidação da República como resposta conservadora das elites - a questão da terra e dos/as trabalhadores da terra era central e ocupou boa parte dos debates e esforços dos segmentos mobilizados pelo abolicionismo. A questão da “reforma agrária” estava presente neste debate, assim como as mobilizações pelo fim da “divisão feudal da terra”. Neste mesmo período, foram se consolidando os primeiros cenários industriais no Brasil, e parte das primeiras associações de trabalhadores/as (associações mutualistas) aderiu ao movimento abolicionista em sua agenda. Entretanto, este processo de industrialização, mesmo que vinculado em suas formas de produção e reprodução aos produtos da terra e gestando um novo sujeito social – o/a operário/a –, continuou garantindo a permanência dos padrões de profunda desigualdade da sociedade brasileira.
Este trânsito das identidades de trabalhadores/as neste período (escravo-liberto, livre/escravos das oficinas, artesão/operário) é essencial para a compreensão da classe trabalhadora no Brasil. As possíveis formas de integração e/ou interdição do trabalhador/a negro/a no processo de industrialização se deram sem que as questões do estatuto da terra e das relações de trabalho na terra fossem resolvidas.
O comprometimento das respostas operárias ao impasse estrutural da questão da terra no Brasil tem tido, ao longo do tempo, consequências importantes que se expressam ainda hoje na falta de um consenso político que priorize a re-formatação da estrutura agrária e agrícola no Brasil, a partir de um projeto popular.

IHU On-Line - De que forma foi a participação das mulheres na formação da classe operária brasileira? Quais as diferenças na atuação da mulher na indústria têxtil e em outros setores da própria indústria?
Nancy Cardoso Pereira – Neste trânsito que marca as classes que vivem do trabalho no final do século XIX e início do século XX, o fluxo entre trabalho manual/artesanal/industrial vai ser importante de ser estudado. Tomo como ponto de análise as “textilidades”, isto é, os modos de produção têxteis que existiam neste período, porque aí vou encontrar as mulheres. Seja no trabalho manual no âmbito da casa, seja nas oficinas de tecido com trabalho escravo e/ou livre (também organizados em galpões ligados às casas) e até mesmo nas primeiras fábricas: as mulheres trabalhadoras migraram do tear no fundo da casa para o tear na fábrica em pouco tempo, de modo massivo e em situações de extrema exploração.
Desde o século XVIII, que o algodão brasileiro e outras fibras já faziam parte do pacote de exportações da Coroa Portuguesa, em especial para a Inglaterra, que tinha o monopólio dos produtos têxteis. O fortalecimento de um mercado consumidor interno criou as condições para a ampliação dos teares familiares que passaram a assumir um perfil de “pequena indústria” como se documenta em 1768, na região de Barbacena, Minas Gerais. Este processo vai articular o trabalho na agricultura com a produção de algodão, e o trabalho manual/artesanal liderado por mulheres, interferindo nos planos comerciais da Coroa, que chega a proibir com um decreto, em 5 de janeiro de 1785, pela Rainha D. Maria I, a produção de têxteis no país. Os teares foram proibidos e banidos; as oficinas foram fechadas e os/as trabalhadores/as poderiam ser punidos se mantivessem a atividade “subversiva”.
Uma guerra ao tear
Esta guerra aos teares era em especial contra as mulheres e seus processos de trabalho. O modo de vida camponês tem como característica a pluriatividade de base familiar, e as tarefas têxteis eram de vital importância e projetavam técnicas de trabalho e conhecimento das fibras que estavam culturalmente associadas às mulheres camponesas (livres/escravas). Mesmo que pareça uma incorreção falar de campesinato neste período, é importante ressaltar esta simultaneidade das identidades camponesas para que seus modos de vida não se invisibilizem. A guerra contra os teares e suas artesãs dura até 1808, com a chegada de Dom João VI  e a abertura dos portos. 
As relações comerciais com a Inglaterra continuavam a garantir os privilégios dos produtos ingleses que dificultavam o surgimento de uma indústria têxtil brasileira. Existiam as fibras de boa qualidade, existiam tecnologia e trabalho apropriado, mas a indústria têxtil se consolida no século XIX com este perfil de economia de periferia, dependência tecnológica e manutenção das condições de trabalho explorado. No começo do século XX, já existiam cerca de 50 indústrias têxteis no Brasil, que chegou a representar o setor mais importante da frágil economia nacional.
As mulheres eram, no século XIX e no começo do século XX, maioria na classe operária têxtil (chegando a 90%, segundo os dados do documento “Recenseamentos Gerais do Brasil no século XIX - 1872 e 1890”). Neste sentido, as mulheres estiveram como protagonistas no momento de formação da classe operária no Brasil e sofreram estas contradições e violências das formatações do trabalho e o trânsito do trabalho no modo de vida camponês/doméstico para o mundo da fábrica e suas explorações.

IHU On-Line - Como a senhora vê a relação entre a divisão sexual do trabalho na fábrica e a divisão de gênero na sociedade atual?
 
Nancy Cardoso Pereira –
 As mulheres na fábrica sofriam duplamente por conta das péssimas condições de trabalho, os baixos salários e a pesada jornada que era imposta; sofriam também com as relações de poder dentro do próprio operariado. Mesmo sendo maioria na base do trabalho têxtil, as representações de associações e sindicatos era, desde o início, expressa pelas lideranças masculinas. Estudo as greves no período de 1908/1909, nas Tecelagens no Rio de Janeiro, a partir do Jornal Voz do Trabalhador da Confederação Operária Brasileira. Os textos insistem na necessidade de fazer com que as mulheres voltassem para casa (também as crianças!) e sugerem que as fragilidades do movimento se deviam ao caráter das “débeis” mulheres. Somente com a importação de tecnologia pesada, a indústria têxtil pôde prescindir do trabalho das mulheres, e, seu conhecimento, acumulado neste campo de produção. 
A música de Noel Rosa  “Três Apitos” revela bem a situação da operária que sofre com a impertinência do gerente, é controlada pelo guarda noturno, disciplinada pelo apito da fábrica e passa frio corajosamente. Ainda hoje as mulheres são maioria da população contratada com carteira assinada: na pesquisa do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos – DIEESE, feita em 1999, em Santa Catarina, as mulheres eram 63% da mão-de-obra assumindo os postos dos setores específicos da tecelagem (costura, fiação, embalagem).
IHU On-Line – No início do século XX, as mulheres que trabalhavam na indústria têxtil participavam dos movimentos grevistas, sendo que as conquistas alcançadas beneficiavam mulheres e homens. Como essas conquistas impactaram na atuação das mulheres que trabalham hoje na indústria?
Nancy Cardoso Pereira – A história do movimento operário a nível mundial tem vínculos muito expressivos com as lutas das mulheres trabalhadoras têxteis. Mesmo numa visão mais ampla da história, percebe-se uma recorrência e permanência tanto no mito como nas narrativas de mulheres tecelãs. Este simbolismo do fio/rede/net/web como dinâmica que liga isto com aquilo é culturalmente atribuído às mulheres, podendo assumir contornos passivos ou ativos. Nos mitos e nas tradições, a tecelagem e a lavoura estão sempre juntas; como se a tecelagem fosse também um trabalho de lavoura, um ato de criação de onde saem, fixados na lã, os símbolos da fecundidade e a representação de campos cultivados.
Este lugar da mulher nos espaços de textilidades se identifica também nos marcos míticos da classe trabalhadora: a greve, em 1917, das trabalhadoras têxteis, em São Petersburgo, marcou o início do levante popular que desembocou na Revolução Russa. Este fato se confunde com a morte de mulheres trabalhadoras têxteis, em Nova York, em 1909, que motivou manifestações pelos direitos das mulheres trabalhadoras. O atual Dia Internacional da Mulher está baseado nestes acontecimentos e suas narrativas.
Parte dos movimentos feministas reivindica as tecelãs russas como o ponto a partir de onde se tece a luta das mulheres, garantindo a rebeldia e o protagonismo. A versão do incêndio em Nova York tece sua narrativa a partir do sofrimento e do martírio, podendo assumir um caráter mais essencialista e reformista. Anos mais tarde, em 1963, Che Guevara se dirige a uma assembleia de trabalhadores/as em Cuba: uma indústria têxtil chamada Ariguanabo. Che reconhece um problema no processo revolucionário: aquela indústria têxtil tem 4 mil trabalhadores/as, cuja maioria são mulheres. Foram eleitos 197 representantes desta fábrica para a assembleia partidária: só 5 mulheres! O Che reconheceu que a revolução ainda não havia cumprido seu papel e que “o passado continua pesando sobre nós”.
Foi nesta ocasião junto às trabalhadoras têxteis de Ariguanabo que o Che disse sua famosa frase: “O proletariado não tem sexo!” Este slogan reúne e distribui estas relações históricas de poder desigual que persistem no âmbito da classe trabalhadora.

Greyce Vargas

Fonte: ihuonline